Numa noite fria de Março, na velha cozinha rural, ao calor do lume do fumeiro, que com o seu fumo curava todo o tipo de enchidos, algumas crianças da aldeia, preparavam-se para ouvir com muita atenção, uma vez mais, um conto da Ti Piedade, que a todos alegrava com o desenrolar de fantasias.
Começou então assim, a Ti Piedade.
“Meus meninos, esta estória que hoje vos vou contar é verídica e descreve os sonhos que oito rapazinhos, todos eles do Porto e arredores, tiveram na mesma noite, sonhos esses que tinham uma coisa em comum e que todos, sem excepção, adoram fazer – andar de bicicleta no monte.
Do mais franzino ao mais gordinho, do mais alegre e sempre irrequieto ao mais calmo e tímido, do mais velho ao mais novo, todos se conhecem de muitas outras brincadeiras.
Os seus nomes, por ordem dos sonhos que tiveram e que aqui vos vou descrever, são estes: o Mário, o Tomé, o Valdemar, o Oliveira, o Domingos, o Nuno, o Rogério e por fim o Zé Vieira.
O sonho do Mário
O Mário, nessa noite, até não se deitou tarde, tinha passado todo o sábado a arrumar e a organizar umas pequenas coisas e, adormeceu rápido. Passado um pouco, já sonhava a bom sonhar.
Veio-lhe à memória momentos de um passado recente, em que tinha pedalado na sua “bicla” (1) por estas bandas, desfrutando de belas paisagens serranas e saboreado belas iguarias.
No seu sonho, dirigiu-se ao restantes rapazes dizendo, “… vamos até Vieira do Minho, vamos lá malta, aquilo é muito bonito e come-se muito bem. A feijoada é uma delícia…”
E continuou a sonhar, sonhava que rolava, que pedalava e andou nisto toda a noite, sem se cansar, percorrendo trilhos de memória, até o despertador o acordar.
O sonho do Tomé
O Tomé, sempre fora de entre todos os rapazes, aquele que mais jeito tinha para as traquitanas e para as artes. Era por assim dizer o artista do grupo, aquele que com dois paus fazia uma canoa e com uns rabiscos, fazia um retrato.
Nessa noite, sonhou com as belas paisagens do Gerês, com lindos enquadramentos de montanhas, vales, rios e pontes, onde teria todo o prazer de pedalar na sua “jingajoga” (2) ou de retratar com a máquina fotográfica, que o seu tio Teodoro lhe oferecera.
Sonhava, pedalava, sonhava, fotografava, sonhava, sonhava, pedalava, pedalava, fotografava, pedalava, quando como um flash, os raios do sol o acordaram para um novo dia.
O sonho do Valdemar
Corria já a noite adentro, quando o Valdemar, muito predestinado a belos sonhos e a terríveis pesadelos, começou a sonhar com descidas perigosas, caminhos estreitos e sinuosos em bosques de árvores coníferas onde o sol dificilmente consegue entrar e onde habitavam uns velozes seres com cabeça de cabra, que em vez de pernas, possuiam duas rodas.
Esses seres tinham ainda o dom de conseguirem ler as mentes dos seres humanos, que de diversas formas percorriam as matas e, dessa forma, consciencializavam os mais audazes para os perigos escondidos e enchiam de coragem os mais temerosos.
No seu sonho, esses seres chamavam-se bicabras, eram de uma enorme simpatia e foram eles que o ensinaram a andar de “burra” (3).
O sonho do Oliveira
ZzZzZZ ZZZZZZ ZZzzZZzzz, o Oliveira já dormia a bom dormir e na sua cabecinha, os sonhos intercalavam quase todas as coisas boas de que gostava, não lhe dando sossego, mesmo deitado que estivesse. Cantarolava, assobiava, dava piropos às catraias, tudo isto com muita alegria, achando e dando graça a tudo o que lhe rodeava, enquanto pedalava, fosse onde fosse.
Sonhava com peripécias que gostava de fazer, com brincadeiras que gostava de ter, com partidas que haveria de pregar aos amigos e com as habilidades que conseguia fazer com a sua “menina” (4).
De ter ouvido falar, sonhava com os doces que queria comer e lambuzar-se, empanturrando-se até mais não. Sonhou que comia bolas de berlim, nham, nham, nham, natas, nham, nham, nham, tartes, nham, nham, nham, ao ponto de ter acordado com a sensação de uma valente dor de barriga que o fez correr para a casa de banho.
“Ah, é verdade, quase me esquecia de vos contar”, disse a Ti Piedade. O Oliveira sonhou ainda, que a sua bicicleta teria um ataque de soluços, mas que mesmo assim o haveria de aguentar, a ele e a tudo que enfardou.
O sonho do Domingos
“Ó Domingos vai-te deitar”, dizia a mãe. “Amanhã tens que ajudar o teu pai na oficina.”
E assim foi, deitou-se esperançado com a promessa que o pai lhe tinha feito. Dar-lhe aquela “máquina” (5) que ela há muito andava a namorar, na loja de bicicletas, lá de Gondomar.
Mal adormeceu, sonhou que a sua bicicleta tinha asas, tinha motor, tinha radar, tinha isto e aquilo, tinha tudo e que o poderia levar, fosse aonde fosse. Mesmo sendo ele o mais gordinho de todos, ela o levaria a Vieira do Minho, terra dos seus avós maternos, ao Douro, a Santiago, à China e até mesmo à Lua, caso fosse necessário.
E assim foi, no seu sonho, momentos antes de acordar, tinha estado a saborear uns belos enchidos, saídos do fumeiro do seu avó. Que bem lhe souberam. Pena foi, ter acordado com água na boca.
O sonho do Nuno
Sempre veloz enquanto pedala, o Nuno também costuma passar depressa a noite, sonhando sem parar e sem descanso e nessa noite, também assim aconteceu.
Sonhou dizendo para quem o escutava “… esta aventura… vão ser favas contadas… quando começar a pedalar, é o ver se me apanhas… hei-de subir e descer, percorrer montes e vales… passarei com toda a velocidade por aqui e por ali… etc, etc…”, num corre, corre incansável até que acordou, todo ensopado em suor, por tanto esforço despendido enquanto dormia e sonhava que corria, em cima da sua “namorada” (6).
O sonho do Rogério
Deitou-se cedo. Cansado de tanta correria só lhe apetecia dormir, mas na sua cabeça fervilhava o que poderia fazer com a sua “pasteleira” (7), novinha em folha.
Sonhou que do alto do seu selim, poderia dominar terras de Vieira, inspirado na Maria da Fonte e como cavaleiro da Fé, conquistar os montes de Caniçada a Louredo, de Salamonde a Ruivães, abrindo novos trilhos e dando novos rumos a cavaleiros de duas rodas.
Sonhava com a condecoração dos seus feitos e na bravura da Gente de Energia, que o tinha ajudado em tais conquistas, quando foi despertado pelas badaladas do sino da igreja de S. Pedro da Cova, eram cinco da manhã.
O sonho do Zé Vieira
Novo nestas andanças, o Zé Vieira sonhou toda a noite com o convite do amigo Domingos. Fugirem os dois de “bina” (8), sem os pais saberem, para a serra da Cabreira, à procura dos seus amigos que se tinham escapulido, deixando-os para trás, por serem mais lentos e capazes de os atrasarem nas aventuras que desejavam ter.
E o Zé sonhou …” não, não, eu vou ser capaz, eles vão ver Domingos, que nós os dois, com mais ou menos dificuldade, os vamos acompanhar, talvez mais cansados mas aonde eles forem, nós também lá havemos de chegar, ou eu não me chame Vieira….”. E acordou com a chamada da mãe. “Levanta-te Zé, tens de ir para a escola.
(1) bicla – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(2) jingajoga – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(3) burra – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(4) menina – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(5) máquina – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(6) namorada – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(7) pasteleira – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
(8) bina – nome por que alguns pedalistas, tratam a sua bicicleta.
Façam o favor de serem felizes, sejam sempre crianças.
Valdemar Freitas
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