Caminho a Santiago de Compostela
23 a 26 de Agosto de 2012
PEREGRINAÇÃO A SANTIAGO – 2012
Pelas 8 horas da manhã do dia 23 de Agosto de 2012, partiam da Sé Catedral do Porto, um grupo de 8 amigos e peregrinos em bicicleta com destino a Santiago de Compostela.
Lá arranquei eu na minha peregrinação, pedalando e pensando na minha vida e nas possíveis dificuldades que tinha que enfrentar.
Ao chegarmos a Vila do Conde, já andava-mos às voltas por causa das ditas setas amarelas, indicando a direção de Santiago de Compostela.
Depois do almoço em Fão apanhamos uma série de trilhos de pedregoso terreno que nos estoirou com o dito cujo (assento).
O primeiro dia não foi nada fácil para mim, não estava habituado a andar tantos quilómetros, porque apesar de ter treinado antes de partir, andar de Bike três ou quatro horas, é diferente de andar 8 ou 10 horas por dia, mas lá chegamos a Caminha, que era o nosso primeiro destino.
No segundo dia partimos de Caminha fazendo a travessia do rio Minho de ferry para A Guardia,
Durante o trajeto que é todo á beira-mar até Baiona, lindo não fosse a maldita chuva aparecer o passeio seria muito mais aliciante, chuva essa que esteve presente durante o dia todo até o grupo chegar a Pontevedra, neste dia a maldita chuva arrebentou com a malta toda.
Instalados por fim, e jantados, toca a deitar. Adormeci logo. Duas razões poderosas estavam na génese do adormecimento súbito. Uma, era o cansaço a outra, barriga cheia. Peço desculpa aos meus companheiros de quarto pelo meu ressonar.
No terceiro dia lá partimos nós com destino a Santiago, alguns companheiros já tinham feito este percurso no ano passado quando foram pelo caminho interior e disseram que era quase todo a subir, havia que reunir forças e energias para a parte final, e trilho após trilho, muito bonitos neste percurso, caminho após caminho lá chegámos todos juntos, e sem mazelas a Santiago.
Gostava de destacar o trabalho e dedicação que o meu irmão Valdemar teve com os carimbos e a leitura das rotas e mapas.
Da minha parte o meu muito obrigado, e um abraço a todos os companheiros nestes dias pelo apoio, convivência e amizade, bem hajam.
Em certos momentos vamos a rir, tem outras alturas que dão para chorar, enfim podem crer que apesar do tremendo esforço físico, a parte psicológica é bastante importante.
Esta experiência foi para mim, pessoalmente muito rica em valores humanos, de fé e sentido de entre ajuda enorme, pois ao longo da caminhada vive-se todo o tipo de sentimentos.
Até à próxima.
Rogério Freitas
23 a 26 de Agosto de 2012
Da ansiedade dos últimos dias já nada resta. Estou finalmente a caminho…!
Tenho a impressão de que a dificuldade diminuiu agora que pedalo entusiasmado junto com os outros, a subida parece-me menos penosa.
Chego à Cordoaria e já há percalço, o Jorge rebentou com o “porta-bagagens” e está inconsolável. Rais’ parta a Sport Zone e mais esta merda…! Mas que é isto???? Um garrafão de água do Luso…! Um microondas e um estojo completo para o cabelo com um boião de Isostar à mistura? Não há alforge que resista né?
Bom após alguns elásticos estrategicamente dispostos com a preciosa ajuda de “um técnico mirone presente”, seguimos a todo o vapor para a Rua de Cedofeita onde começo a aperceber-me da “importância da seta” …!
Ausente do meu conhecimento até então, a dita “amarela” iria atingir uma dimensão nunca antes adivinhada.
Senhora do seu traço revelador, a dita cuja mandava avançar até à próxima que era, senão a mesma, uma igual que resultaria no mesmo.
Isto sem nunca hesitar ou sequer se enganar…é por aqui é por aqui e ponto final!
Do trauma da “amarela” hoje já só resta saudade… mas continuemos!
Sim continuemos por aqui! Diz o nosso GPS falante (Valdemar), carregado de mapas e notas e também alguns mapas, para já não falar dos mapas… OK pronto… faça-se Justiça!
O rapaz até é competente naquilo a que se propõe. Sem a sua capacidade organizativa e logística o grupo estaria desfalcado sendo talvez a melhor palavra que me ocorra no momento. Enfim, acho que no grupo formado cada qual assumiu a sua competência no todo… e funcionou! oh se funcionou!
Funcionou Km após Km, umas vezes a subir outras a subir, já que das descidas ninguém gosta. Estranha forma de vida? Não, é mesmo assim!
Os melhores momentos são os mais penosos, à dor e ao cansaço tratamos por tu.. e não, não somos masoquistas, a isto chama-se vencer!
Mas deixemo-nos de considerandos, que se faz tarde e precisamos de chegar em tempo a Seixas, onde a rimar acumulamos muitas “queixas”. Aquilo que digo, resumo…evitem! Evitem se puderem !
Apanhem o Ferry e esqueçam os Portugueses a mais o seu pão com manteiga a 13€ prós fregueses…!
Temos fome de Baiona e suas belas paisagens! Do marisco nem se fala, hoje só puras miragens!
Sim a saudade já tomou conta de Vigo a Pontevedra, de Pontevedra a Santiago, muito haveria para contar, mas o culminar resiste bem presente.
A imagem daquela Praça repleta de emoções e sentimentos e sobretudo de VENCEDORES, permanece bem presente e real… é só até já!
Abraços,
Jorge Bastos
23 a 26 de Agosto de 2012
Uma breve introdução.
O Caminho Português pela Costa era utilizado pelos peregrinos que vinham das terras mais ocidentais e que desembarcavam nos portos portugueses.
Os peregrinos que passavam por Viana do Castelo e por Caminha, onde existiam albergues e hospitais, atravessavam o rio Minho, de barco até á Guarda ou por Goián, mais a Norte, para fugirem á corrente do rio e evitarem a fronteira de Tui.
A partir daqui colocava-se o primeiro dilema: ou seguiam pela costa ou pelo interior, através das serras agrestes circundadas de esplêndidas paisagens até chegar a Vigo, ou então seguiam pela costa.
Este caminho, junto á costa, que o Dar ao Ped@L percorreu, depois de feita a travessia do rio Minho, em ferry, de Caminha para a Guarda, com o imponente estuário do rio Minho e o porto pesqueiro , sobe até ao monte de Santa Tecla, prosseguindo junto ás praias do Oceano Atlântico, passando pelo pequeno porto e mosteiro de Oia até chegar ao cabo Silleiro, com o seu famoso farol, atravessando Baiona, circundada por um Castelo, hoje transformado em pousada, até se chegar á ria de Vigo.
De Vigo segue para Redondela, onde se cruza com o Caminho Central.
A primeira etapa do Porto a Caminha, foi bastante dura até passarmos Vila do Conde, com muito paralelo e as passagens pelas vilas/cidades, desnecessárias e com falta de marcação.
Só em Esposende é que começamos a sentir o verdadeiro caminho, com uns trilhos interessantes.
O percurso repartiu-se por 3 Etapas, a primeira, Porto – Caminha ( com 112 Km), a segunda Caminha – Pontevedra (104 Kms) e a terceira etapa Pontevedra – Santiago (64 Kms ) .
Pelo meu velocímetro foram 280 Kms a pedalar em 3 dias.
Pontos fortes: o espírito de entreajuda e o convívio entre os 8 companheiros do Grupo Dar ao Ped@L.
A comida e o alojamento foram 5 ***** , como documentam as fotos que fomos tirando em alguns restaurantes, sendo de realçar a paragem que fizermos para almoço em Baiona, para degustarmos as especialidades desta costa.
Pontos fracos: a chuva que nos acompanhou no segundo dia, desde Oia até Redondela, que aumentou o peso que tivemos que carregar e que não nos permitiu desfrutar das belas paisagens da ria de Vigo, que se avistam das serras que atravessámos e que nos impediu de disparar mais uma quantidade de fotos.
Tivemos apenas 4 furos para 16 rodas, que surgiram no 3 º dia, o que não se pode considerar que foi mau, para os trilhos que fomos fazendo, sendo contudo de realçar o bom estado dos mesmos.
O regresso a nossas casas, no domingo, de comboio, quase 7 horas para chegar ao Porto, foi a parte que mais custou ao Grupo, o fim desta aventura, tendo no entanto reinando a boa disposição entre os betetistas do Dar ao Ped@L, a reviverem as peripécias com que nos deparamos ao longo dos 4 dias.
Alguém já me perguntou, qual o significado destas viagens/passeios até Santiago de Compostela para mim?
Deixo aqui o meu testemunho:
Trata-se da minha quinta peregrinação a Santiago de Compostela, num espaço de 2 anos.
Iniciei os caminhos, com o Grupo Desportivo BPI, numa caminhada que fiz no ano passado, desde Valença até Santiago .
Ainda em 2011, seguiu-se a minha primeira experiência em bicicleta com o Grupo Dar ao Pedal, desde o Porto até Santiago, pelo caminho Central.
Este ano, voltei ao caminho, em Abril com uma caminhada com o Grupo Desportivo, pelo caminho francês, que iniciamos em Cebreiro, onde tive a honra de ser o Guia do Grupo e a seguir o Passeio que fiz em bicicleta, repetindo o percurso do ano passado, passeio promovido pelo Grupo desportivo e por último este percurso que fiz agora em Agosto com o Grupo Dar ao Pedal, pelo caminho Português pela costa.
Todo o entusiasmo, a ansiedade, o espírito de grupo, um por todos e todos por um, o fortalecimento dos laços de amizade, a entreajuda entre o Grupo, são factores que fazem com que os caminhos de Santiago sejam algo diferente e importantes para mim.
O objectivo de chegar a Santiago e esperar que tudo corra bem, até alcançar a Praça do Obradoiro, receber a Compostela, testemunho de que cumprimos a peregrinação e partilhar a alegria com os amigos que nos acompanharam nesta aventura, dar aquele abraço que todos esperamos.
Por fim assistir á missa do peregrino, abraçar o apóstolo Santiago e esperar pelo momento mais reconfortante, assistir á cerimónia do botafumeiro, são momentos que ficam registados na nossa memória, o preencher de um vazio, de quem vive e sente os caminhos de Santiago.
É mais uma etapa marcante da nossa vida.
Como dizia o padre na homilia na Catedral de Santiago, sobre o porquê deste caminho, faz-nos sentir diferentes, é a realização de mais um objectivo, é o encontrar de um sentido para a vida.
O entusiasmo é tanto que começamos já a planear o próximo caminho.
Mário Dantas
Peregrinação a Santiago de Compostela em BTT
com o Grupo Desportivo BPI
Nos dias 07, 08 e 09 de Junho uma equipa de 7 betetistas, decidiu vestir as cores laranja e azul do Grupo Desportivo do Banco BPI (GDBPI) e rumar a Santiago de Compostela, partindo da Sé do Porto, pelo caminho central português, e realizar um percurso em BTT num total de 243,3 km.
1ª Etapa: Porto – Ponte de Lima (87,5 km)
Concentração agendada para as 08.30h da manhã, junto á Sé para a tradicional foto de partida que ocorreu às 09.00h.
Nesta etapa tivemos a companhia do Grupo Dar ao Ped@L, nossos amigos das pedaladas dos fins de semana, que organizaram um passeio conjunto com o GDBPI até Vilarinho (Vila do Conde), formando uma bonita equipa de 15 ciclistas, tendo incentivado os 7 betetistas que rumaram em direcção a Santiago.
Paragem em Barcelos, para almoço no restaurante Arantes, onde nos foi servido um assado de perna de borrego à padeiro, para retemperar a força muscular e nos prepararmos para o árduo desafio que iríamos ter da parte da tarde.
Seguiu-se a passagem por aldeias, com paisagens magníficas, com as subidas da Portela e Vitorino de Piães, a desgastarem alguns ciclistas, já cansados de tanto pedalar ainda com o borrego por digerir.
Chegamos a Ponte de Lima e fomos brindados com um banho de chuva.
Em terras minhotas, fechamos a etapa com chave de ouro, com o famoso sarrabulho e rojões e a sobremesa “bomba” no Restaurante Alameda.
2ª Etapa: Ponte de Lima – Pontevedra (89,6 km)
A etapa mais longa e a mais dura do percurso, a começar pela subida da Labruja até alcançar a Cruz dos Franceses, para a seguir recuperar, com a adrenalina a subir e alguns ciclistas a testarem os travões das bikes, com algumas descidas técnicas à mistura.
Ainda tivemos de enfrentar mais uma subida até S. Bento da Porta Aberta, para depois começarmos a descer até Valença e pararmos para almoçar, altura em que estavam apenas percorridos 37 kms.
Mais uma breve paragem em Tui para visitar a Catedral e seguirmos em direcção a Redondela, por um dos trilhos mais bonitos do caminho.
O pior do percurso estava para vir com a subida que passa por Mós até alcançarmos o Monte Cornedo.
Aproveitamos para parar em Redondela e fazer o reabastecimento com bananas e barras energéticas, para 2 novas subidas até Pontevedra, o Alto da Lomba e o Alto da Canicouva.
Nesta etapa o trio PRO Elite (António, Luís e Paulo), destacaram-se dos restantes elementos do Grupo, que “voaram” com as suas bikes em direcção a Pontevedra, tendo o quarteto Carlos, Hélder, César e Mário, aproveitado para fazer algumas fotos durante o percurso acabando por chegar a Pontevedra, já ao cair da noite.
3ª Etapa: Pontevedra – Santiago de Compostela (66,2 km)
A manhã até começou bem, com os trilhos junto à linha do comboio, animados por vários outros grupos de ciclistas portugueses que também rumavam em direcção a Santiago.
O pior estava para acontecer com a minha queda a seguir a San Mauro, a causar mazelas num joelho e num braço, com a rápida ajuda e assistência por parte de 1 bombeiro e 1 farmacêutico, que também nos acompanhavam na altura.
Um desvio até ao parque natural em Barro, para tomarmos café, tendo sido brindados com a passagem do CD de Amália Hoje, da Sónia Tavares (The Gift) e mais um momento para registarmos nas nossas câmaras, as belas cascatas do rio Barosa.
Seguiu-se Caldas de Reis, localidade de paragem obrigatória, junto á fonte das águas termais. A partir daqui até Santiago, pedalamos sempre debaixo de chuva e decidimos fazer um intervalo em Padron, com a esperança que entretanto surgisse alguma aberta, altura em que aproveitamos para fazer uma pausa num bar simpático, onde comemos umas bocatas de “jambon serrano”, lombo de “cerdo” assado e “tortilla”, regadas com “cañas” de cerveja.
Apesar da chuva, o grupo continuava bem disposto, a 24 km de Santiago, sendo que nesta fase da etapa ainda tínhamos mais 2 subidas pela frente até chegar à Catedral.
A partir de Padron foi sempre a rolar até atingirmos a Praça do Obradoiro, frente à Catedral de Santiago.
Vencidos pelo cansaço e com poucos peregrinos na Praça, talvez pelo facto de continuar a chover, ainda houve lugar a alguns registos fotográficos, com o Grupo a hastear a bandeira do GDBPI, reinando a satisfação entre todos, por termos cumprido com sucesso, mais uma importante missão.
O trio PRÓ Elite ainda seguiu para Negreira, um percurso de 20 km, para no dia seguinte seguirem em direcção a Finisterra.
Trata-se da minha 2.ª experiência em BTT até Santiago, que considero bastante positiva, pela performance que consegui alcançar em algumas subidas, vencendo-as, incentivado pelo companheiro Hélder, e pelo Luís (o Pró BTT de Aldoar), nas “piscinas”.
Agradeço ao Grupo, os bons momentos de convivo me proporcionaram.
O espírito de companheirismo que permaneceu entre nós ao longo dos 3 dias, foi um dos factores mais valorizado, com a vontade de voltarmos a repetir esta proeza e tentarmos numa próxima oportunidade chegar a Finisterra, cujo nome deriva da expressão latina finis terrae, isto é “fim das terras.
Mário Dantas
4ª Etapa: Santiago de Compostela – Finisterra
Sábado à tarde arrancamos de Santiago pelas 17.00 depois de um bom lanche em direcção a Negreira, o caminho é duro mas muito bonito e variado, com singlestracks em zonas de vegetação densa, algumas subidas de forte pendente.
A chuva miudinha fez-nos sempre companhia e fomos progredindo nos kms, alternando entre troços de estradas regionais e vegetação fechada. De notar que não encontramos vivalma desde Santiago até Negreira, foi estranho, quando digo vivalma foi mesmo ninguém, talvez devido ao adiantado da hora.
Chegamos a Negreira pelas 19.30 PT onde percorremos uma parte da estrada nacional até ao Hotel Tamara. Mesmo em frente uma bomba de gasolina com lavagens, proporcionou às bikes uma lavagem exemplar deixando-as a brilhar.
À entrada no Hotel vimos que o jogo de PT estava a começar e pouco depois estavamos no nosso apartamento em banhos e a ver o jogo.
Depois do jogo descemos ao restaurante do Hotel, um “Asador Típico” com bom aspecto onde atacamos um magnífico “Solomillo rojo” (lombo) de 3 dedos de altura regado a finos qb 🙂
Domingo acordou cinzento ainda sem chuva mas com ameaços. Depois do peq. almoço mal montamos as bikes começa a nossa inseparável chuva miudinha. Já sentiamos a falta.
Prosseguimos no Caminho, que continuou fantástico com partes tanto de bonito como de duro. Recordo uma subida interminável por uma alameda de vegetação estreita, fantástica, tudo muito verde, bancos escavados na rocha cheios de musgo, um verdadeiro “Camino”. Vamos cruzando com alguns peregrinos a pé, na maioria estrangeiros que vamos cumprimentando à passagem. Bicicletas nem uma até Finisterra, só nós 3.
O tempo piora com mais chuva e vento a meio da manhã e obriga-nos a parar num café-bar onde recuperamos energia com umas gigantes sandes de presunto e queijo acompanhados de 2 galões para aquecer o corpo.
Vamos pedalando comendo kms debaixo do mau tempo, não esqueço a conversa do aldoarense, sempre animado ia dizendo… “vocês estão mto calados…,” e para animar a malta dizia…”só de pensar que podia estar em casa no sofá a ver um filme e ia almoçar um assado…” LOL, nós riamos claro.
Começamos a ver o mar e pouco depois atacamos uma descida verdadeiramente pornográfica, de inclinação e pedras soltas, (tipo Labruja a descer) onde qualquer super atleta de btt a faria a pé… claro que o trio “PRO-Elite” fez aquilo de rajada, eu só pensava no alforge lá atrás a bater e que se caíamos ali ia ser preciso numerar os ossos para juntar tudo numa caixa… LOL
A chegada à aldeia junto ao mar animou-nos e pedalamos junto à água algum tempo até retomarmos o caminho em direcção a Finisterra. Algumas partes em estrada aceleravam os kms comidos, já em contacto com o Paulo, nosso motorista de rescue para o Porto.
À entrada de Finisterra paramos junto à praia num bonito passeio maritimo e eu e o Paulo fomos ao mar, onde o Paulo insistia que ia ao banho…mas quando molhou os pés passou-lhe vá lá…
Depois de carimbarmos e obtermos a Finisterrana (diploma) dirigimo-nos para o farol onde havia uma espécie de festa, estava tudo de cara pintada, tipo hippies anos 60.
Já eram 17.00 PT pelo que decidimos trocar Muxia por uma mariscada junto ao porto onde assistimos ao jogo da Espanha… é quase a mesma coisa. Assim vamos ter que voltara fazer tudo outra vez para ir a Muxia. 🙂
E regressamos ao Porto em conversa animada pelo grande Luis mais a sua lenga-lenga aldoarense.
António Gonçalves
18 de Setembro de 2011
São sete da manhã e já todos nos levantamos, ninguém quer mais, tão pouco dormir, quanto mais ficar na cama a descansar. A vontade agora é outra, deixar as bikes estacionadas e bem guardadas no parque vedado do hostal e ir a pé até à Oficina do Peregrino para levantar a mais que merecida Compostela, como prova de termos pedalado cerca de 270 km, desde a Sé Catedral do Porto, em Portugal, até à Catedral de Santiago de Compostela, em Espanha.
Possuir a Compostela, é de uma enorme felicidade, para quem percorre os diversos Caminhos a Santiago, quer seja o caminho primitivo, o francês ou o português e, perfaz a pé ou a cavalo, no mínimo 100 km ou 200 km se utilizar a bicicleta, como foi o nosso caso.
A Oficina do Peregrino, situada muito perto da Catedral, atribui a Compostela ao peregrino, depois de se certificar que o titular da credencial, percorreu as distâncias mínimas exigidas, tendo como comprovativos os carimbos/sellos que o mesmo foi obtendo nas localidades por onde passou e nos mais diversos locais onde as conseguiu, como por exemplo, nos cafés onde tomou pequenos-almoços, nos restaurantes onde almoçou ou jantou, nos albergues onde pernoitou e descansou ou nas capelas e igrejas onde rezou e pediu um Bom Caminho.
Enquanto esperávamos na fila, que a Oficina abrisse, fomos ouvindo algumas experiências vivenciadas por um italiano, que tinha terminado no dia anterior, de percorrer a pé, o Caminho Francês, desde Saint-Jean-Pied-de-Port, tendo demorado mais de um mês, pois caminhava durante dois dias, descansando um.
As portas abriram e todo o processo de obtenção da Compostela foi muito rápido pois existem diversos postos de atendimento, localizados no primeiro andar do edifício, que respondem com muita solicitude a todas as questões dos peregrinos e lhes atribuem a Compostela, depois de validadas todas as premissas.
Depois de assinarmos o livro de visitas e já com os “canudos” nas mãos, saímos felicíssimos, parecendo estudantes com o curso superior acabado e, só não atiramos as” cartolas”, digo, os capacetes, ao ar, pois também esses, tinham ficado no hostal.
Dirigimo-nos à Catedral, não para assistirmos à missa, que teria início mais tarde, nem à cerimónia do “bota-fumeiro”, que pelos vistos, nem sempre se realiza, mas sim para dar o abraço ao santo e agradecer-lhe o nosso Bom Caminho e ainda, apreciar o interior imponente do edíficio e tirar mais umas fotos de recordação.
De seguida, fomos às compras, às tartes de amêndoa e às pedras de chocolate, uma vez mais com a sugestão do Mário Dantas, que nestas coisas de adoçar a boca e satisfazer a família, é um entendido por demais.
Com belas guapas a darem-nos a provar estas especialidades compostelanas, não podíamos recusar a compra de tão boas doçarias.
Depois fomos comprar os recuerdos para oferecer aos familiares, amigos e também para nós próprios, tipo pins, t-shirts, terços, brincos, fios, vieiras, etc., tudo lembranças com ícones de Santiago de Compostela ou associados aos Caminhos.
Tínhamos agora que tomar um bom pequeno-almoço para depois regressar ao hostal, fazer o check-out e montarmo-nos uma vez mais nas nossas bikes até à estação de Santiago, onde apanharíamos o comboio até Vigo.
Tomar o pequeno-almoço também teve o seu quê de aventura, pois a exemplo do já tínhamos feito na noite anterior, também nessa manhã, andamos às voltas e perdemos algum tempito, à procura de uns ditos e não menos famosos, enormes croissants, que o companheiro Vítor, havia comido outrora, numa qualquer pastelaria, que nenhum galego nos foi capaz de indicar.
Se não há cão, caça-se com gato, se não há croissants, há bolas de Berlim e outros bolos deliciosos e tudo o resto que precisávamos para aconchegar a barriga até ao almoço, lá para as imediações da estação de Vigo, à qual deveríamos chegar, entre a uma e meia e as duas da tarde, horas espanholas.
Fizemos o check-out, levantamos as nossas mochilas e todos os restantes haveres, preparamos as bikes e partimos a pedalar encosta abaixo, seguindo o Vítor que era o elemento que tinha consigo o mapa que indicava o percurso desde o hostal até à estação.
Na estação, tivemos uma desagradável recepção e uma não muito boa surpresa, ambas com cunho espanhol. Uma funcionária de bilheteira antipática, nada interessada em responder às nossas questões, que chegou mesmo a arreliar o Vítor com a sua sobranceria e uma regra que só permite a viagem, até três pessoas, com bilhetes devidamente validados para o viajante e para a sua bicicleta, a colocar em lugar apropriado junto a uma das portas do comboio.
A nossa regra, “Vamos todos, vimos todos” iria em terras de Espanha, ter uma quebra, pelo menos durante o tempo que iria mediar entre a solução que tivemos à força que tomar.
Como éramos cinco, três iriam no primeiro comboio a sair para Vigo cerca do meio-dia e meia e, já não me lembro porquê, a escolha (sorte) recaiu no Mascarenhas, no Oliveira e no Vítor.
Eu e o Mário Dantas, partiríamos uma hora e vinte minutos mais tarde, num comboio que também demoraria mais tempo a chegar a Vigo, pois efectuava mais paragens.
Das viagens até Vigo, apenas posso falar da minha e acrescentar que na dos “primeiros”, parece que o caldo quase se entornava entre o Oliveira e um arrogante espanhol, que não queria desocupar o lugar que por marcação, pertencia ao nosso ilustre companheiro.
A minha e do Mário, foi pelos vistos mais agradável, pois tivemos por companhia umas belas meninas, mucho guapas por sinal, pouco dormidas, que vinham de uma Rave, em La Coruña e que, connosco travaram um diálogo, que chegou a meter, pasme-se, Quim Barreiros e palavrões da nossa bela língua, ditos num castelhano muito feminino, a fazer lembrar os filmes de Almodôvar.
Reencontro de companheiros na estação de Vigo, fomos à procura de um restaurante para almoçarmos, mais uma vez em cima das nossas “namoradinhas” de duas rodas, nas ruas e avenidas circundantes à estação e junto ao porto de Vigo, não nos podendo afastar muito, pois o Oliveira, não aguentava mais o rabo, em cima do seu maldito selim.
Num qualquer café, situado numa cave, onde nos permitiram descer com as bikes, almoçamos pela última em Espanha, uma refeição normalíssima, tiramos mais uma foto de grupo e ainda trocamos umas piadas com os espanhóis, sobre a cabazada dos 7-0 que o Benfica tinha levado em Vigo, tudo por causa de uma foto que junto a nós estava, do plantel do Celta de Vigo.
De volta à estação, sentados e com muito tempo pela frente, pois o comboio com destino ao Porto, só sairia de Vigo, pelas 18:38 espanholas, vá lá saber-se porquê, os seguranças da estação propuseram-nos que metêssemos as bikes dentro do comboio português, já estacionado na linha de onde deveria partir, no local destinado e nos suportes para esse fim e que por sinal, só davam para 4 bicicletas, tendo a do Mário ficado no chão, encostada e presa a uma das portas que não iria ser aberta durante a viagem.
Com as bikes guardadas, fomos dar uma volta a pé pela cidade, para passar o tempo, apreciar as galegas, as lojas, as avenidas, mas tirando tudo o resto, os nossos olhos só brilharam para as bicicletas Trek, de roda 29, que apreciamos numa montra e para as habilidades que miúdos espanhóis faziam, também com as suas bicicletas, num parque radical para esse tipo de manobras.
De novo na estação, desta vez na sala de espera situada no átrio das bilheteiras, íamos apreciando os viajantes e cometendo mais umas loucuras, bem à moda tuga e que, valha a verdade, não deveriam ser relatadas para não nos envergonhar.
Ele era o Oliveira a fazer imitações de macaquinho, a cantar “Mas quem será, mas quem será, o pai da criança”, juntamente com o Mascarenhas e o Mário, outras risotas e brincadeiras sobre coisas que já não me recordo mas, que fizeram com que o tempo de espera passasse a cem à hora e muito divertido, até à hora em que embarcamos para o Porto.
A viagem para o Porto, foi uma viagem de comboio como muitas outras que todos nós já fizemos e da qual nada à de relevante a dizer a não ser que, era o elo de ligação entre a nossa AVENTURA de quatro dias e a REALIDADE dos dias que se lhe seguiriam.
Valdemar Freitas
(António Oliveira, Emanuel Mascarenhas, Mário Dantas e Vítor Godinho)
17 de Setembro de 2011
Saímos de Redondela, pelas 8 horas espanholas, depois de termos tomado um pequeno almoço numa pastelaria bem perto do albergue, onde alguns espanhóis ainda ressacavam a noitada de sexta para sábado, bem bebidos e fumados.
Nas ruelas que circundam o albergue, tivemos o primeiro percalço, o Mascarenhas tinha um pneu em baixo. Não sabendo se seria furo, o Oliveira deu umas “bombadas” que aguentaram o pneu até à estação de serviço, logo à saída de Redondela, aproveitando aí, quase todos nós, para também verificarmos a pressão dos nossos pneus.
De volta a estrada, demos um pouco à frente, pela falta das nossas “guias”, as indispensáveis setas amarelas que nos vinham orientando, desde a Sé Catedral do Porto. Desfeito o engano, com a indicação que mais à frente encontraríamos novamente o Bom Caminho e as setas, não nos livrando de ter que subir uma muito íngreme subida, com as nossas amigas bicicletas pela mão.
Por essa subida acima, fomos encontrando peregrinos a pé, que tinham pernoitado connosco no albergue de Redondela e que tinham saído bem mais cedo, como foi o caso das senhoras oriundas de países do Leste da Europa, com muito andamento, neste tipo de peregrinações.
Do cimo, tomamos uma estrada em terra, plana de início e depois em descida, que nos iria levar a descobrir das mais belas paisagens do caminho, em terras de Espanha, a vista das rias junto a Pontevedra. Com vista, para a ria, surge-nos, mais ao menos a meio da descida, mais um local onde os peregrinos deixam recordações à sua passagem, desta vez, em forma de um “estendal” de cordas onde cada um pode deixar, uma vieira, uma foto ou postal, um boné e muitos outros tipos de objectos.
Depois de mais umas fotos individuais e do grupo, fizemos-nos ao caminho, até à estrada em asfalto, que julgo ser a N550, que por diversas vezes, atravessamos ou percorremos por pouco tempo e que é a estrada nacional que vai até Santiago.
Logo no início do asfalto, mais um contratempo, o Mascarenhas tinha um furo na roda de trás. Com a boa vontade de todos, mas diga-se de verdade, apenas com o esforço/experiência do Oliveira, logo se despachou o problema e toca mas é a pedalar, pois o nosso destino ainda está por alcançar.
De novo a seguir as setas, uma atrás da outra, passamos por Arcade (famosa pelas melhores ostras da Galícia), por entre um aglomerado de ruelas até que chegamos à ponte de Pontesampaio, lugar muito bonito e com direito a paragem obrigatória para as fotos do costume, mas sem tempo para nos deliciarmos com a famosa cidra de caña.
Atravessada a ponte, voltamos às subidas, por entre ruelas muito íngremes, com direito a ter que levar as nossas meninas pela mão. Por falar em meninas, foi por esta altura, que passamos pela mexicaninha. Já não te lembravas disto pois não Oliveira, mas eu recordo-te que foi a última vez que a viste.
Logo de seguida, atravessamos uma ponte situada mesmo ao lado de uma outra romana mas sem condições e entramos numa calçada romana/medieval sem condições em grande parte do seu percurso, para que pudéssemos pedalar.
Assim que pudemos voltar a sentar-nos em cima nas nossas bikes, fomos vencendo caminho até que fizemos uma paragem junto à Capela de Santa Marta, em Bertola e onde tínhamos à nossa disposição, mais um carimbo, para as nossas credenciais.
Daí até Pontevedra foi um tirinho. Aí chegados, fomos tomar os nossos cafezinhos da praxe, a um café junto à estação dos comboios, com direito a churros a acompanhar os cafés, mais carimbos e reabastecimento. Pontevedra, num sábado de manhã pelos menos, tem muita gente a percorrer o seu lindíssimo centro histórico e pode-se mesmo dizer que já é uma cidade média com agitação urbana, de que gostei particularmente e que um dia hei-de lá voltar.
A nossa ideia era ir almoçar a Caldas de Reyes e por isso passamos fugazmente por Pontevedra, mas ainda assim com diversas paragens para muitas fotos, pelo menos até atravessarmos a ponte sobre o rio Lérez.
Até Caldas de Reyes, todos os caminhos são quase na sua totalidade fáceis de fazer, de diversos tipos mas todos muito interessantes e a convidar o viajante a uma paz com a natureza, tal a sensação de sossego que transmitem.
A meio do caminho, fizemos um pequeno desvio para conhecermos as cascatas do Parque de Ria Barosa e tirar mais umas fotos num lugar muito aprazível mas um bocado desgastado pela época do Verão que à pouco terminara e que deixara rastos de mau ambiente.
Assim que chegamos a Caldas de Reyes, dirigimo-nos primeiro à igreja com o intuito de colocar os carimbos mas, tanto a igreja como o albergue de Caldas de Reyes, estavam fechados e nada feito.
No entanto, não ficamos tristes, porque de seguida, tivemos uma grande experiência, sensação, nova para todos, excepto para o Mário, que foi o de molharmos os pés, muito cansados por sinal, na água quente da Fonte das Burgas. É mesmo uma água termal muito quente, que faz com que não se aguente muito tempos os pés dentro dela, mas que a todos nos proporcionou, dos mais belos momentos de descontracção de todo o caminho.
Reconfortados, de pés lavados e descansados, fomos à procura de restaurante para almoçar, seguindo uma vez mais indicações no nosso guia, para as coisas da boca e da barriga, o Mário Dantas, bom conhecedor do melhor que os espanhóis nos poderiam servir.
E assim foi realmente, tivemos o nosso melhor almoço, em terras espanholas, no restaurante- hotel Lotus, com direito a aparcamento das bikes na garagem do hotel, a uns empanados de porco, de presunto e de fiambre, salvo erro, e ao melhor de tudo, um grandiosíssimo Caldo Galego.
Mas que espectáculo de caldo, saboroso, peitoral, energético, eu sei lá que mais, uma maravilha, a que todos nos rendemos.
Posso mesmo afirmar, também na opinião de todos, que melhor que o caldo galego para a barriga, só mesmo os cintos espanhóis, das espanholas, mas esses, com efeitos nas nossas vistas, que os olhos também… comem e há, quem tenha sempre, mais olhos que barriga.
Com a barriga cheia e os olhinhos felizes, fomos buscar as nossas bikes para nos fazermos de novo ao caminho mas, primeiro tivemos que resolver mais um imprevisto, que foi ter que trocar novamente a câmara de ar da bike do Mascarenhas, que essa sim, não havia maneira de ficar cheia.
Esta estória do vazio-cheio-vazio-cheio, ainda vai ter mais cenas, e que cenas.
De novo ao caminho, agora pela Calle Real e de seguida por estradas de terra até entrarmos num percurso inesquecível entre prados e bosques, lá fomos nós pedalando, sempre entregues à pródiga natureza, fotografando aqui e ali, filmando o Mascarenhas, com a sua máquina incorporada no capacete , dos mais bonitos clips da nossa aventura.
Foi por essa altura, que demos pelo atraso do Oliveira, que nos disse que tinha ficado para trás, para fazer uma paragem técnica e apertar o cadeado.
Mas o menino Oliveira mentiu-nos, tinha sim, tido uma indisposição, segundo ele provocada pelo esforço que fizera, logo após o almoço, a dar à bomba, para encher a câmara do Mascarenhas, tendo mesmo chamado pelo gregório (vomitado) e ficado com a barriga vazia e sem o bendito caldo galego.
Mas nada abala o homem do Norte, muito menos a “Oliveira forte e dura de roer” e a prova disso é continuar a pedalar, não dando sinais de fraqueza, cansaço, desânimo, antes pelo contrário outros sinais, e que sinais.
Como dizia o outro, “vós sabeis do que estou a falar”, e o momento que proporcionou, a meu ver, a nossa melhor foto de grupo, teve outros sinais.
Sinais sonoros, musicais, de gargalhadas e sorrisos, de risotas até às lágrimas, de aromas, tudo isto junto a uma pequena ponte de madeira, enquanto o grupo sentado num banco e com o tripé montado, tira mais uma foto, muito feliz e… gaseado, quem sabe, pelo bendito caldo galego.
Refeito dos efeitos, que só bem lhe fez (a alegria é a melhor energia), o grupo voltou a pedalar com muita mais vontade e com toda a genica de atingir o seu grande objectivo desse dia – chegar a Santiago.
Mas pelo meio, ainda teríamos que passar Pontecesures e chegar a Padrón, local onde se diz que aportou a barca com o corpo de S. Tiago e o padrão, onde foi amarrada a barca e que deu nome à cidade.
Em Padrón, visitamos a igreja de S. Tiago, vimos o já referido padrão que está no altar da igreja e procedemos à cerimónia de atirar moedas, tentando que as mesmas fiquem no cimo do padrão, numa concavidade e que não caiam, para o fosso, onde estão aos milhares.
Aqui, aconteceu mais uma peripécia nada agradável e que aconteceu inadvertidamente. No altar, cruzavam-se vários peregrinos, uns efectuando a cerimónia anteriormente descrita, outras escutando as explicações de uma guia turístico e outros fotografando, como era o caso do Vítor, que sem querer, penso que tocou ao de leve, com a mochila que trazia às costas, no suporte para livros abertos, utilizado para a leitura de homilias, durante as missas e outros rituais religiosos.
Nada de anormal aconteceu ao referido suporte pois este deveria estar em bom estado e ser de boa construção, mas foi um grande estrondo e mais um susto para o Vítor, que ficou muito nervoso e só se viu mais descansado, quando obteve o sello, muito bonito por sinal, e se viu fora da igreja, pronto para seguir caminho a Santiago.
Seguimos uma vez mais a N550, depois de termos passado por Iria Flavia e entramos depois num curioso labirinto de pequenas localidades que se sucediam umas atrás das outras, tendo pelo meio vinhas e campos até surgir novamente a N550 que deixamos quando viramos para Teo.
Daqui em diante, fizemos estradas secundárias, estradões, caminhos de terra, uns mais largos, outros mais estreitos, com subidas e descidas mais ou menos acentuadas, até que vimos pela primeira, as torres da Catedral de Santiago, local de referência para todos os peregrinos, a uma distância de sensivelmente quatro quilómetros.
Foi por esta altura, que detectei que a minha bike tinha um pequeno grande problema que me impedia de seguir a direito e que a cada pedalada que dava, tinha que corrigir a direcção. Fui assim mesmo até ao final e nada me impedira de lá chegar, nem que fizesse os últimos quilómetros com a bicicleta pela mão ou às costas, eu haveria de lá chegar.
Descemos o asfalto, atravessamos um viaduto sobre a linha do comboio até que chegamos a um local, onde se tem que escolher, qual a subida que se pretende fazer, para chegar à catedral.
Para a esquerda, sobe-se até à catedral, pela estrada que passa junto do hospital, mas diz-se que este não é o verdadeiro caminho português, que o original, é o que segue pela direita por um caminho de terra e que nos leva até bem perto do centro histórico.
A opção que tomamos foi a de seguir o caminho português original, já que o vínhamos fazendo desde o Porto e de nos concentrarmos no início da subida final, que nos levaria à praça do Obradoiro, para que este último trecho da nossa aventura ficasse registado na câmara do Mascarenhas.
Foi o que fizemos, mas com tanta vontade de chegar, a ansiedade apoderou-se de todos, que penso que já ninguém via setas amarelas e apenas seguia o caminho por instinto ou por conhecimento de outras idas a Compostela, que significa campo de estrelas, estrelas que iluminaram, tanto o caminho como os peregrinos de outrora, como o nosso caminho e os elementos do Dar ao Ped@L.
Não sei se passamos a porta Faxeira, entrada tradicional do Caminho Português, penso que não e, também é certo que não seguimos toda a rua de Franco, que nos enganamos e que fomos dar às traseiras da catedral, mas, depois de corrigido o engano, entramos finalmente na praça do Obradoiro e agradecemos a Santiago por nos ter dado Caminho Bom e termos chegado sãos e sem problemas ao nosso destino.
Foi com muita alegria, que nos abraçamos e felicitamos pelo feito alcançado, que ligamos para as nossas esposas a comunicar que tínhamos chegado a Santiago e que fizemos todas as fotos e filmes, com a catedral como fundo.
Não há palavras que melhor descrevam estes momentos, que vivemos numa praça cheia de peregrinos e de outras gentes, das mais variadas origens, num sábado em final de tarde, do que as que a seguir se descrevem…
“fazer este caminho, foi certamente a maior aventura das nossas vidas.”
O principal estava feito, faltava arranjar albergue para nos alojarmos em Santiago e no dia seguinte irmos visitar a Catedral, abraçar o santo, irmos à Oficina do Peregrino obter a Compostela, documento em latim que comprova que fizemos o caminho a Santiago e comprar algumas lembranças para os familiares.
Ficamos bem hospedados num albergue particular, o La Salle, jantamos muito bem no restaurante La Bodequilla de San Roque e, após uma volta pelas ruas típicas do centro histórico, que circundam a belíssima catedral e outros monumentos, fomos descansar e sonhar com tamanha aventura.
Amanhã é outro dia e o regresso a casa.
16 de Setembro de 2011
Mal dormidos, um pouco pelo calor que emanava no quarto do albergue, com todas as suas camas ocupadas e sobretudo por causa das badaladas dos sinos da igreja, mesmo ali ao lado, ainda tivemos que levar com a alvorada luminosa e sonora, provocada pelo Oliveira, que madrugou e de que maneira, com pressa de partir e enfrentar, qual D. Quixote de La Mancha, os moinhos de vento, diga-se antes, nesta aventura, os tormentos da Labruja.
Mas valeu bem a pena, o cedo erguer, pois de outra forma não teríamos assistido ao encanto de uma belíssima Ponte de Lima às sete da manhã, com uma suave neblina, que nos proporcionou as mais belas fotos de paisagens de todo o nosso caminho a Santiago.
Matabicho no papo, que é como quem diz, prontos de estômago para continuar o caminho, eis os cinco do Dar ao PedaL, de novo a seguir as setas por estradas de paralelos, de pedra e caminhos de terra nos mais diversos estados, até à nossa primeira paragem do dia, para o já célebre cafezinho e o carimbo da ordem.
O local escolhido, foi o bar Riba Rio, local aprazível com zonas de lazer e pesqueiros para quem faz da pesca o seu passatempo, localizado no meio do nada, isto é, inserido na natureza sem nenhuma civilização em redor.
Bem, cafés tomamos mas quanto a carimbos, nada, não havia tinta e por mais força que fizéssemos na almofada, eles nunca surgiram.
Desculpas dadas pelo facto de a gerência ter mudado e ainda não ter tido tempo para tratar destes pormenores, esperamos que o Vítor acabasse a sua obra à Porto e ficasse mais leve e seguimos novamente caminho.
Entre campos, vinhas, matas, fomos seguindo as setas e parando para fotografar tanto os pedalistas como este ou aquele ponto de interesse, até que, muito por causa da sua veia de fotógrafo em andamento, o Oliveira deu o seu primeiro trambolhão, num pequeno e inclinado carreiro de terra entre arbustos, daqueles que picam e dos quais não sei o nome.
Emaranhado com a sua namorada nova, todo torcido, com arranhadelas, hematomas no ombro mas com tudo o resto no sítio, nada que o impedisse de pedalar e apenas aborrecido por ter-se estreado nos tombos, seguimos novamente viagem até à nossa próxima paragem, o Café Nunes no lugar da Revolta, para mais uns carimbos e reabastecimentos de água e bebidas energéticas, o nosso doping.
Já refeitos do susto da queda do Oliveira, levamos com outro ainda maior, que quase ia fazendo com que o Vítor tivesse que voltar atrás, ao local onde deixara obra.
Não é que a credencial do Vítor não aparecia, tivesse ficado esquecida no balcão do Riba Rio, ter que se lá voltar, ir de táxi, “de bicicleta chega-se lá num instante”, dizia a senhora do Revolta, chamada para 93, chamada para 96, até que, o salvador Mário Dantas a encontrou junto com as suas, a com carimbos e a de reserva.
Tinha-a apanhando a do Vítor no balcão e nem deu fé que passou a três credenciais.
Foi o destino que assim quis e mais uma vez não passou de um grande susto que estremeceu e de que maneira o senhor Godinho mas que lhe deu ainda mais alento para o resto da viagem e forças nas canetas, para o que se aproximava cada vez mais de nós – a terrível Labruja.
Fomos subindo, subindo, é agora, não ainda não é, até que finalmente, agora sim, temos que carregar as nossas bikes aos empurrões e às costas, por meio de pedregulhos, rasgos profundos na terra e nas pedras, de tantas e tantas aventuras e Invernos, e dobramos a Labruja com muito suor e dispêndio de energias, quais Bartolomeus Dias, perante as tormentas do Bojador.
Se o cabo se tornou Boa Esperança, a serra tornou-se da Ajuda tal foi a garra e a entreajuda com que a enfrentamos até a darmos por VENCIDA e, na Cruz dos Mortos, ou dos Franceses, disso deixámos prova, tal como os marinheiros portugueses de antão, içavam padrões em glória aos seus feitos.
A Labruja, foi e será sempre, nos moldes actuais o percurso mais difícil de todo o Caminho Português a Santiago, quer o peregrino se desloque a pé ou como nós, de bicicleta.
Do cimo, após um breve descanso, toca a pedalar que o tempo foge e mais há frente, após mais uma ou outra descida, uma ou outra subida irá surgir uma fonte que a todos matará a sede, a fonte da Água Longa.
Dizem os entendidos (Mascarenhas e Oliveira) que se trata de uma válvula de descarga, uma purga, eu sei lá, certo certo, é que por um pequeno furo, corre um fio de água, que a todos nós refrescou e permitiu reabastecer cantis de água fresca “Del Cano”.
Daqui em diante, a descer por entre caminhos e estradas, na bacia do rio Minho e em direcção ao Vale do Coura, passamos por Água Longa, Rubiães onde encontramos o seu albergue ainda fechado e sem direito a carimbo e voltamos a parar, desta vez em Paredes de Coura, para mais um reabastecimento e mais carimbos, num estabelecimento mercearia/café/tasca, à moda das nossas aldeias.
De novo em cima das nossas “meninas”, fomos subindo, agora de uma forma mais suave até chegarmos a S. Bento da Porta Aberta, paramos mais uma vez, tentamos a nossa sorte no Euromilhões e ganhamos mais uns carimbos para as nossas credenciais, o décimo quinto carimbo até então.
De S. Bento da Porta Aberta até às portas de Valença do Minho, onde almoçamos nesta segunda etapa, nada houve de muito significativo a não ser pedalar pelos mais diversos caminhos, cruzarmo-nos com peregrinos a pé (em todo o caminho, nunca nos cruzamos com outros peregrinos de bicicleta) e darmos de caras com um fulano numa motoquatro, num carreiro entre vinhas e vindimas.
Com umas doses de churrasco misto nas nossas barrigas, já que peixe não puxa bicicletas, fomos deixando Valença para trás, incluindo o albergue também encerrado e sem carimbo e atravessamos o rio Minho na ponte internacional e recebidos com um Bienvenido a España, entramos em Tui e em terras de “un canto a Galicia“.
Era hora de siesta em Tui, a Catedral estava fechada e nem nos demos ao trabalho de ir ao albergue, passamos o famoso túnel das Clarissas e por mais uns poucos monumentos de índole religioso, todos fechados, passamos ao lado da ponte da Veiga, local onde tiramos mais umas belas fotos e entramos num dos mais bonitos percursos do Camiño, a passagem pelo vale do Louro, onde se situa um cruzeiro que assinala o local onde faleceu S. Telmo.
Atravessamos ainda mais uma ponte, onde galegas guapas, jardineiras de serviço, limpavam o mato do caminho, paramos mais uma vez para fotografar e até cantar (falta-nos ver o vídeo desta proeza) e um pouco depois, chegamos à Asociación Cultural “A Lagoa”, em Budiño, que apesar de fechada, tem à disposição dos peregrinos um carimbo com um patinho e água para beber e refrescar.
Do mais bonito, passamos ao mais feio, que foi atravessar a longuíssima recta da zona industrial de Porriño, com tudo de feio que se lhe pode acrescentar, trânsito, ruído, poluição e maus cheiros, travessia apenas compensada por mais uns carimbos que obtivemos já dentro de Porriño, de uma simpática galega, na sua bocatería Simplicio, mas que pôs em questão, se não era trampa, o facto de eu estar a pedir três carimbos, enquanto o Oliveira buscava uma Loja de Chinos e o Mascarenhas disparava mais umas fotos.
O nosso destino inicial, para término desta etapa, era Pontevedra mas, pelo adiantar da hora adoptamos a ideia de ficarmos em Redondela, isto é, se conseguíssemos chegar a tempo e horas de arranjar alojamento.
Saímos de Porriño, passamos pequenas localidades, quase sempre por bons caminhos até que chegamos a mais um albergue, o de Mos, com a indicação de que os carimbos se obtinham na mercearia em frente. Foi o que fizemos.
Este albergue, já se situa numa subida, para seguirmos caminho com destino a Redondela, ainda temos que subir muito mais, primeiro uma estrada empedrada e depois uma outra asfaltada, bem inclinada e longa e, para poupar esforços, todos nós as fizemos com as nossas bikes pela mão.
Chegados ao cimo, demos com uma localidade em fim de festa mas ainda com as iluminações festivas, decoradas com para-quedistas, sinónimo daquilo que aos cinco nos pareceu, que ali tivéssemos caído de para-quedas e não vindos de bicicletas.
Trocadilho à parte, fomos quase sempre descendo até Redondela, onde chegamos já muito perto das oito horas espanholas, ao seu albergue e, cheios de sorte, ficamos com as últimas cinco camas e com os cinco únicos espaços disponíveis para estacionar as nossas bikes.
O albergue é pequeno, possui duas alas para dormidas no piso de cima, dispõe de beliches muito chegados entre si, disponibiliza lençóis e almofada descartáveis a todos os peregrinos e balneários masculino e feminino em boas condições e tem no piso inferior um cozinha, um wc e uma sala de estar com um pequeno auditório.
Mais uma vez, após os registos efectuados, pertences arrumados e banhos tomados, saímos todos iguais, qual equipa em estágio e fomos tratar de jantar à pressa, desta vez uns combinados espanhóis, pois tínhamos que entrar no albergue antes das dez da noite mas com a possibilidade de se puder permanecer no rés-do-chão a conversar até o sono nos pedir cama.
E foi mesmo isso que nos aconteceu, cansados e com sono, fomos todos para os nossos aposentos, desta vez separados.
O Oliveira ficou na zona mexicana, eu no sul de Espanha pois por cima de mim, tinha um casal de espanhóis à procura do Norte, o Mascarenhas acho que ficou com o Norte mas da Europa e o Vítor e o Mário, perto do Alentejo, calmo e tranquilo.
Aqui termina a segunda etapa.
Amanhã temos a última, a Santiago com toda a coragem.
Valdemar Freitas
(António Oliveira, Emanuel Mascarenhas, Mário Dantas e Vítor Godinho)




















































































































